Ana era solitária e vivia em um casarão nas montanhas, a
casa era herança de seus antepassados, era grande e cheia de memórias, ali
havia muito a se contar. Era como se as paredes falassem. A madeira do assoalho
rangia, a tinta era desbotada. Lá fora havia um belo jardim colorido, e aos
fundos uma horta, dali muito se produzia o alimento. As flores, ah, as
flores...atraiam inúmeros pássaros e borboletas. Era tudo tão velho, com
aspecto de abandonado, mas muito feliz.
Mas Ana sentia um vazio profundo, sem vizinhos,
familiares ou alguém que fizesse companhia, ela desfrutada da solitude e do
vazio dia após dia.
Um dia, quando Ana fora até a cidade, tivera uma ideia, e
por que não pensara ela...fizera um cartaz e colara no correio local, com uma
frase encorajada pedindo um jardineiro, porém a ideia era um companheiro e não
alguém que cultivasse as plantas.
Passou um tempo e nada, parecia ter sido uma ideia em
vão, tão vazia quanto ela. Porém um dia, quando Ana estava pendurando as roupas
no varal, um homem alto e magrelo, barba por fazer, uma roupa de camponês já
surrada e uma voz macia a observava. Quando Ana deu por si, levara um tremendo
susto deixando a roupa cair de sua mão. Ele a cumprimentou gentilmente e
perguntara sobre o anúncio do correio, ela confirmara que sim, que tinha sido
ela, e que estava no lugar certo.
Então, Ana acabou de pendurar as roupas, convidou o
gentil homem para tomarem um café enquanto ela explicava sobre o trabalho.
Dissera de antemão que um serviço fácil, tinha que cuidar
apenas do jardim e da horta. Explicara que as plantas tinham um período certo
para serem remanejadas, e o mesmo acontecia com os vegetais, além disso havia
uma extensa grama para ser reparada.
O homem concordou e por ali já ficou. À noite Ana o
encaminhara para seu quarto, que ficava no sótão da velha casa enquanto
preparava o jantar. Jantaram e cada um dirigiu-se para seus aposentos.
Amanheceu, e quando encontraram-se na cozinha, o homem
comentara sobre os excessivos cantos dos pássaros. Surpreso que durante a
madrugada mesmo começavam a cantar. Ana estranhou um pouco, visto que o homem
era do campo, mas deixou por isso mesmo.
Não havia muito que fazer, exceto cortar a grama, pois a
horta e o jardim estavam impecáveis. Então acabaram o café da manhã e o homem
foi fazer o que tinha que ser feito.
O tempo foi passando e ambos se tornaram grandes amigos,
Ana limpava e cozinhava, ele cuidava da parte de fora da casa. Aos poucos o
homem começara a despertar certo interesse em reformar a casa, e a cada dia
fazia algo. Ora! Ana ficou muito feliz com sua atitude, os dias eram de pura
alegria, para os dois.
Ana foi tendo mais confiança e intimidade e contara a ele
sobre a casa e sua história, lhe dissera que era herança, e que a casa estava
na família há mais de um século.
A casa fora se transformando e ganhando vida, paredes
pintadas, poço de água funcionando, telhados trocados, móveis restaurados, e
por aí se ia, o homem era muito habilidoso, onde punha a mão parecia que aquilo
era tocado por mãos mágicas.
Com o passar do tempo Ana começara a perceber que o homem
ia mudando, aquele gentil e adorável cavalheiro camponês ia mostrando sua outra
face. Aquilo era desagradável e triste.
Em uma manhã outonal o homem fora até a cidade e Ana
curiosa e intrigada bisbilhotara suas coisas, neste dia descobriu que ele não
dizia ser quem era, por algum motivo para ela desconhecido.
Em seu retorno, Ana o questionou e o encurralou, querendo
uma explicação a respeito de si, pensara, afinal quem pusera dentro de sua casa
e depositara total confiança. Ele mudara sua expressão facial imediatamente,
tentando enrolar um pouco, tentou inventar uma história mas nada lhe vinha à
mente, foi quando disse-lhe a verdade, que era um primo distante, e que quando
viu o anúncio sabia do que e de quem se tratava e subiu as montanhas no mesmo
instante.
Assim que terminou a frase, fora até o galpão e entrara
na cozinha golpeando Ana com um machado, seu sangue espalhava pelo velho
assoalho de madeira.
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