domingo, 10 de novembro de 2024

Ana

Ana era solitária e vivia em um casarão nas montanhas, a casa era herança de seus antepassados, era grande e cheia de memórias, ali havia muito a se contar. Era como se as paredes falassem. A madeira do assoalho rangia, a tinta era desbotada. Lá fora havia um belo jardim colorido, e aos fundos uma horta, dali muito se produzia o alimento. As flores, ah, as flores...atraiam inúmeros pássaros e borboletas. Era tudo tão velho, com aspecto de abandonado, mas muito feliz.

Mas Ana sentia um vazio profundo, sem vizinhos, familiares ou alguém que fizesse companhia, ela desfrutada da solitude e do vazio dia após dia.

Um dia, quando Ana fora até a cidade, tivera uma ideia, e por que não pensara ela...fizera um cartaz e colara no correio local, com uma frase encorajada pedindo um jardineiro, porém a ideia era um companheiro e não alguém que cultivasse as plantas.

Passou um tempo e nada, parecia ter sido uma ideia em vão, tão vazia quanto ela. Porém um dia, quando Ana estava pendurando as roupas no varal, um homem alto e magrelo, barba por fazer, uma roupa de camponês já surrada e uma voz macia a observava. Quando Ana deu por si, levara um tremendo susto deixando a roupa cair de sua mão. Ele a cumprimentou gentilmente e perguntara sobre o anúncio do correio, ela confirmara que sim, que tinha sido ela, e que estava no lugar certo.

Então, Ana acabou de pendurar as roupas, convidou o gentil homem para tomarem um café enquanto ela explicava sobre o trabalho.

Dissera de antemão que um serviço fácil, tinha que cuidar apenas do jardim e da horta. Explicara que as plantas tinham um período certo para serem remanejadas, e o mesmo acontecia com os vegetais, além disso havia uma extensa grama para ser reparada.

O homem concordou e por ali já ficou. À noite Ana o encaminhara para seu quarto, que ficava no sótão da velha casa enquanto preparava o jantar. Jantaram e cada um dirigiu-se para seus aposentos.


Amanheceu, e quando encontraram-se na cozinha, o homem comentara sobre os excessivos cantos dos pássaros. Surpreso que durante a madrugada mesmo começavam a cantar. Ana estranhou um pouco, visto que o homem era do campo, mas deixou por isso mesmo.

Não havia muito que fazer, exceto cortar a grama, pois a horta e o jardim estavam impecáveis. Então acabaram o café da manhã e o homem foi fazer o que tinha que ser feito.

O tempo foi passando e ambos se tornaram grandes amigos, Ana limpava e cozinhava, ele cuidava da parte de fora da casa. Aos poucos o homem começara a despertar certo interesse em reformar a casa, e a cada dia fazia algo. Ora! Ana ficou muito feliz com sua atitude, os dias eram de pura alegria, para os dois.

Ana foi tendo mais confiança e intimidade e contara a ele sobre a casa e sua história, lhe dissera que era herança, e que a casa estava na família há mais de um século.

A casa fora se transformando e ganhando vida, paredes pintadas, poço de água funcionando, telhados trocados, móveis restaurados, e por aí se ia, o homem era muito habilidoso, onde punha a mão parecia que aquilo era tocado por mãos mágicas.

Com o passar do tempo Ana começara a perceber que o homem ia mudando, aquele gentil e adorável cavalheiro camponês ia mostrando sua outra face. Aquilo era desagradável e triste.

Em uma manhã outonal o homem fora até a cidade e Ana curiosa e intrigada bisbilhotara suas coisas, neste dia descobriu que ele não dizia ser quem era, por algum motivo para ela desconhecido.

Em seu retorno, Ana o questionou e o encurralou, querendo uma explicação a respeito de si, pensara, afinal quem pusera dentro de sua casa e depositara total confiança. Ele mudara sua expressão facial imediatamente, tentando enrolar um pouco, tentou inventar uma história mas nada lhe vinha à mente, foi quando disse-lhe a verdade, que era um primo distante, e que quando viu o anúncio sabia do que e de quem se tratava e subiu as montanhas no mesmo instante.

Assim que terminou a frase, fora até o galpão e entrara na cozinha golpeando Ana com um machado, seu sangue espalhava pelo velho assoalho de madeira.

  

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